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Biografia de Kátia B

Katia Bronstein, a Katia B, é uma das poucas cantoras brasileiras que tem a perfeita noção de que um bom show não se resume à própria música ou ao rosto bonito. Os shows de Katia B - como o do recém-lançado Espacial, seu terceiro CD - marcam também outro tipo de presença na consciência do espectador. Eles se empenham na criação de um clima. No cenário, no figurino, na formação da banda, na escolha do repertório e na própria opção pelos lugares onde se apresentar. No todo. Nada é casual e, no entanto, tudo é sincero.

O clima dos shows de Katia B não raro cria um curioso contraste com o teor de suas músicas. Se estas quase sempre celebram um amor feliz, o climão geral pode apontar na direção da melancolia. Nessa dialética, ela alcança aquela convivência entre alegria e tristeza que caracteriza, por exemplo, as músicas judaica e balcânica ou a nossa bossa nova. A fina seleção do que entra ou não entra em discos e shows também atesta seu cuidado autoral, nas parcerias com Fausto Fawcett (Dança do ventre da guerra), Lucas Santanna (Espacial) ou Suely Mesquita (Mundo grande), no recurso a um Vítor Ramil (Viajei) ou a um Tom & Vinicius (O amor em paz). Ninguém nunca perdeu nada por respeitar o passado.

Katia B, porém, não quer ser mera repetidora da tradição. Ela faz música brasileira, sim, com certeza, mas música brasileira não só pós-Beatles - obviedade apenas para quem não se enterrou com a "raiz" - mas também pós-Massive Attack. A sua elegante ousadia se reflete na formação que a acompanha nos shows de Espacial: Marcos Cunha e Plínio Profeta (revezamento vertiginoso entre teclados, Macs, baixo, violão, flauta...), Gustavo Corsi (guitarra) e Jam da Silva (percussão). Às vezes, este povo soa como uma banda de heavy metal; às vezes como um banquinho e um violão. Do mesmo modo, às vezes Katia soa frágil; às vezes, poderosa. Quase sempre, tudo isso ao mesmo tempo, como na sua música Vou te esquecer. Aliás, tudo o que Espacial ou seus predecessores Katia B (2000) e Só deixo meu coração na mão de quem pode (2003) não são é esquecíveis.

Arthur Dapieve