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O Porão

Niasa

No fundo do poço tem um porão
Com paredes pintadas de frustração
Onde o medo sussurra um grito
E um trauma vira manuscrito

Com gotas de sangue e suór
Cada linha descreve o piór
Uma lágrima marca o papel
O choro pedindo socorro pro céu

Rimas de dores, nas nuvens escuras
Temendo respostas tão duras
Vozes perdidas, na calada vem
Trazendo memórias que ferem

Verdades malditas, rasgam o peito
Ecoam saudades, um vazio sem jeito
Riscar, apagar, deletar, impossível
Por mais previsível, arquivo invisível

Nesse nível, abaixo do poço
Onde a arte se torna um esboço
Traços revela um baralho marcado
Na tela o abstrato manchado

Tatuado na pele, realismo sem cor
Sombreado um cifrão de valor
Se eu pudesse, amassar essa folha
Reiniciar, começar, refazer a escolha

No fundo do poço tem um porão
Quadros, retratam passos sem chão
Meu corpo levita, e não sinto leveza
Me deixo levar, pela correnteza

Gelada, escura, exala o terror
A fé se dissolve, enriquece o pavor
O peito afogado em onda de tréva
Culpas que o tempo não leva

No espelho, não vejo mais rosto
Só vulto cansado, olhar de desgosto
Segredos de uma alma perdida
Peça do jogo, sem vez na partida

Vícios preenchem o que restou
Anestesia geral, que não pegou
Chorando por dentro e por fora
Um abismo que me apavora

Rimando na marra o porão poesia
Rabisco meu grito na caligrafia
O que um dia foi festa, foi flores
Hoje, espinho, silêncio e horrores

Tatuado na pele, realismo sem cor
Sombreado um cifrão de valor
Se eu pudesse, amassar essa folha
Reiniciar, começar, refazer a escolha

No fundo do poço tem um porão
Onde a esperança pede perdão
Aperto os olhos, parece uma luz
Apaga na grade, que a mente traduz

Tentei conversar com supremo
Ouvi meu pensamento sereno
Encurvei implorando uma prece
Um sinal que nunca aparece

Lembro daquele beco sem nome
Bem fraco, mas nem tinha fome
Saudade da mãe, do pai, do quintal
Tudo era simples e nada era mal

Se o caderno for o último abrigo
Anotado quem cola comigo
Perdoa pelas vezes que falhei
Os anjos sabem o quanto eu tentei

Orei, gritei, sangrei, implorei
Entre rimas, feridas, acordado sonhei
Canetando paz e que achei o sentido
Que foi pesadelo um sono contido

Tatuado na pele, realismo sem cor
Sombreado um cifrão de valor
Se eu pudesse, amassar essa folha
Reiniciar, começar, refazer a escolha

Tatuado na pele, realismo sem cor
Sombreado um cifrão de valor
Se eu pudesse, amassar essa folha
Reiniciar, começar, refazer a escolha

Composição: Niasa



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